Estudo traz hipótese de silicone ter causado câncer de mama; entenda

Nos últimos meses, muitas mulheres têm relatado que decidiram tirar o silicone das mamas com medo de possíveis complicações. Embora considerados seguros, os implantes de mama podem, sim, causar danos à saúde, ainda que seja exceção.

“Desde que o silicone é utilizado para aumento ou reparação das mamas, existem relatos na literatura de complicações associadas, mas claro que isso acontece em uma minoria de pacientes”, afirma Rafael Netto, consultor da Femama (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama), membro da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) e cirurgião plástico no Núcleo Mama do Hospital Moinhos de Vento (RS).

Uma das complicações citadas acima é o Linfoma Anaplásico de Grandes Células Associado à Prótese Mamária (também conhecido pela sigla BIA-ALC), que é um tipo de câncer raro, originado pelo silicone e que envolve as células de defesa do organismo. A doença pode se manifestar com um líquido ou nódulos na mama a aparece de 8 a 13 anos após a colocação do implante.

Outro problema de saúde que pode aparecer é a Síndrome Asia, popularmente conhecida como “doença do silicone”, que é um conjunto de sintomas que a paciente pode apresentar, como fadiga, dor nas juntas e dor muscular.

“O que se entende é que são pessoas com uma certa predisposição a este componente alérgico ou de doenças reumatológicas, cujos sintomas são semelhantes à doença do silicone, e desenvolvem ou agravam seu quadro clínico quando colocam implante de silicone”, explica Netto.

Entretanto, um caso envolvendo uma paciente chamou a atenção de três pesquisadores brasileiros. Uma mulher, após seis meses da cirurgia de implante mamário, foi diagnosticada com câncer de mama —do tipo carcinoma medular de alto grau, considerado raro e com altas chances de cura. O fato virou objeto de um estudo publicado no periódico Dove Press no dia 15 de janeiro deste ano.

Conduzido pelo médico, pesquisador, além de radiologista e coordenador da equipe de Imaginologia Mamária do IBCC (Instituto Brasileiro de Controle do Câncer), Eduardo Fleury, as imagens dos exames chamaram a atenção da equipe.

“O aspecto de imagens deste tipo de câncer de mama muito agressivo não era o usual. Então, o padrão de imagem deste tipo de câncer que se encontra nas mulheres, usualmente, não estava presente neste caso. Por outro lado, vários achados referentes à doença do silicone foram encontrados”, explica.

Daí então surgiu a ideia de ir mais a fundo: “Quando a biópsia foi feita e veio o câncer de mama, ficamos muito surpresos e gerou uma curiosidade: será que o implante pode ter causado esse tumor?”

Os autores do estudo acompanharam de perto a paciente, desde os exames iniciais, biópsias, diagnóstico até o tratamento feito a partir da quimioterapia e retirada da mama esquerda.

Quando os pesquisadores foram analisar microscopicamente o implante, eles notaram que, na área onde apareceu o câncer de mama e que mostrou uma alteração na cápsula fibrosa (que protege a mama), havia uma descontinuidade da prótese. “O que essa descontinuidade fazia? Ela expunha o conteúdo interno para o meio externo. Tinha esse fator que estava, de uma forma contínua, expondo o organismo ao silicone da prótese”, diz Fleury.

Esse líquido do silicone, segundo o médico e pesquisador, pode ser tóxico para as células. “Além disso, tem também um processo inflamatório na região. Quando você pega um processo inflamatório mais a possível toxicidade do silicone, isso pode causar uma agressão no tecido que está adjacente à prótese”, pontua.

Embora o resultado tenha despertado curiosidade na equipe médica, Fleury explica que a publicação é uma “teoria que levanta um questionamento para que estudos futuros comprovem que o que estão falando existe ou não”.

“Nossa proposta é conseguir mostrar qual é o caminho para que aconteça esse câncer. É importante frisar que não é frequente e não é o habitual. Então não deve ser motivo de desespero. Mas a paciente que tem câncer e prótese precisa se atentar para ver se a causa do eventual câncer não pode ter seguido esse caminho que estamos mostrando”, afirma o coordenador do IBCC Oncologia.

Ele diz ainda ter pelo menos mais 10 casos mostrando a ação direta do silicone no tecido modular da mama, gerando lesões benignas ou malignas, mas ainda não publicados em periódicos científicos.

Rafael Netto, cirurgião plástico no Núcleo Mama do Hospital Moinhos de Vento (RS), explica que seriam necessários mais casos para serem analisados. “O artigo levanta uma hipótese e alerta para uma situação que agora precisar ser mais bem investigada em ensaios maiores, por meio da avaliação clínica de pacientes, estudos laboratoriais. Isso é para ver se os componentes do silicone podem gerar ali uma reação naquelas células que conduzam ao desenvolvimento do carcinoma”, diz.

“O trabalho traz questões e como todo bom trabalho essa é a função dele. A ciência só evolui se baseada em perguntas. O grande papel desse trabalho, a grande importância dele é fazer a gente pensar: ‘será que o silicone faz isso? Será que o silicone faz aquilo?'”, explica Victor Cutait, membro da SBCP e professor de cirurgia plástica da Uninove (Universidade Nove de Julho).

Os especialistas também reforçam que não há motivo para pânico, visto que são poucos relatos relacionando as duas condições. “A relação ente silicone e carcinoma é algo que podemos considerar anedótica. São poucos relatos associando essas duas condições”, afirma Netto. “Não dá para estabelecer uma causa e efeito em um estudo que é apenas observacional. Teríamos de ter um grupo de pessoas sendo acompanhado por muito tempo para que pudesse ter essa clareza de associação.”

Os especialistas explicam que as pessoas com silicone não podem deixar de fazer o acompanhamento médico periodicamente e não depois de 5, 10 anos. “É importante que elas façam acompanhamento periódico tanto para a avaliação do risco do câncer de mama, quanto para as complicações do uso de silicone. Ter uma prótese não é algo isento de risco, requer acompanhamento, embora seja um material que já está em uso há 60 anos”, diz Netto.

O especialista da Femana reforça ainda que as próteses de silicone não duram para sempre. “Nenhuma dessas próteses dura para sempre, nem as do Brasil ou de qualquer outra parte do mundo. O material sofrerá desgaste e precisará ser trocado de acordo com a condição clínica de cada um”.

Já Cutait relembra que, apesar de o procedimento ser considerado seguro, a prótese de mama ainda é um corpo estranho e precisa ser observada. “Não pode virar as costas e dizer ‘coloquei e acabou’. A principal precaução que a mulher com prótese de mama tem que ter é ‘coloquei e anualmente tenho que investigar, vigiar e saber como está minha mama’, independente de ela ter 20, 40 ou 60 anos”.

A troca de prótese vai depender deste acompanhamento com um médico. Caso apareça alguma alteração, ruptura no silicone, verificado por meio de exames de imagens, isso será analisado entre paciente e especialista.

Fonte: Viva Bem Saúde

Post da FEMAMA – Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama, divulgado em 22 de fevereiro de 2021.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *